Quando entrou na licenciatura em Gestão da Escola Superior de Tecnologia e Gestão da Universidade Politécnica de Viana do Castelo, Cláudia Loureiro imaginava três anos relativamente convencionais e, talvez, uma experiência Erasmus na Europa. Acabou p
“Macau e o Equador não estavam presentes” nem nos seus “sonhos mais loucos.” É assim que Cláudia Loureiro resume a distância entre aquilo que imaginava quando entrou no ensino superior e o percurso que acabou efetivamente por construir.
Natural de Ponte de Lima, escolheu Gestão depois de vários anos a apontar nessa direção. Procurava uma formação abrangente, que lhe permitisse contactar com diferentes áreas e perceber, ao longo do percurso, onde gostaria de construir o futuro profissional. Encontrou tudo isso na Universidade Politécnica de Viana do Castelo. Mas encontrou também algo que não estava nos planos. “Antes de ingressar no curso já tinha a ideia de fazer um Erasmus. Era algo que adoraria fazer. No entanto, a oportunidade que chegou às minhas mãos foi muito superior às expectativas que alguma vez tive”, adianta a jovem recém-licenciada.
Uma oportunidade inesperada para estudar em Macau
A possibilidade de estudar na Universidade Politécnica de Macau apareceu no final de março de 2025 e obrigou a uma decisão rápida. Meses antes, Cláudia já tinha procurado perceber se uma mobilidade para Macau seria possível. Na altura, a hipótese parecia remota. Quando a oportunidade surgiu através do curso de licenciatura em Gestão, praticamente não hesitou.
Sabia que a decisão podia obrigá-la a prolongar a licenciatura por mais um semestre. Ainda assim, avançou. “A ideia de estudar em Macau brilhava. Não é todos os dias que se recebe a oportunidade de estudar num lugar tão diferenciador e, ao mesmo tempo, tão familiar.”
Na Universidade Politécnica de Macau frequentou, em inglês, cinco unidades curriculares do curso Business Administration in Marketing, em áreas como comunicação, ética empresarial, publicidade e pesquisa de marketing.
A experiência académica trouxe-lhe métodos de trabalho diferentes, aulas em blocos de três horas, avaliação contínua, apresentações, exames intermédios e finais e trabalhos de grupo. Mas o semestre esteve longe de se resumir às salas de aula. Cláudia integrou a equipa de Dragon Boat, participou em atividades interculturais promovidas pela Universidade e acompanhou iniciativas ligadas à cultura, ao comércio e às relações entre a China e os países de língua portuguesa. Viveu no campus e aproveitou também os períodos livres para conhecer Macau e outros lugares da região. “O estudo era algo que exigia mais de mim, mas nada que fosse impossível. E, depois de todo o esforço, era gratificante ver o resultado.”
“Macau ensinou-me que conseguia gerir muito mais do que pensava”
Mais do que uma experiência académica, os meses passados em Macau acabariam por alterar a forma como Cláudia se via. Aprendeu a resolver processos que desconhecia, a tomar decisões sozinha, a organizar melhor o tempo, a comunicar noutro idioma e a adaptar-se a um contexto muito diferente daquele que conhecia. “Macau ensinou-me, como pessoa, estudante e futura profissional, que eu conseguia gerir muito mais coisas do que aquilo que pensava que conseguia.”
Fala também de capacidade de adaptação, pensamento crítico, assertividade e inteligência emocional. E guarda outra aprendizagem: “Macau ensinou-me também a ser mais livre, a viver a vida dia a dia e não apenas a sobreviver.”
Quando regressou a Portugal, poderia ter-se limitado a retomar as aulas e a concentrar-se na conclusão da licenciatura. Mas, pouco depois, apareceu outro desafio. Do outro lado do mundo.
Quatro meses de trabalho em espanhol deram origem ao Norte Flex
O SFERA Experience, promovido pela Universidad Camilo José Cela, de Madrid, reúne estudantes e docentes de instituições de ensino superior de diferentes países ibero-americanos, desafiados a desenvolverem soluções inovadoras em áreas como o empreendedorismo, a inovação social e a sustentabilidade. O programa combina formação, trabalho colaborativo, desafios de inovação e intercâmbio cultural.
Em 2026, o programa teve como enquadramento os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 11, Cidades e Comunidades Sustentáveis, e/ou 12, Produção e Consumo Responsáveis. Ao longo do programa, os participantes eram desafiados a desenvolver projetos de inovação social e sustentável, num processo de formação e acompanhamento orientado para a transferência de conhecimento entre a Universidade e a Sociedade. Cláudia decidiu participar. “Não tinha nada a perder. Pelo contrário, tinha muito a ganhar.”
Ao longo de quatro meses, integrou uma equipa que desenvolveu o Norte Flex, uma aplicação com inteligência artificial destinada a ajudar trabalhadores industriais a escolher rotas e formas de transporte mais sustentáveis, permitindo também selecionar alternativas mais rápidas ou económicas e associando regalias às opções de mobilidade sustentável.
Para chegar à proposta final, a equipa teve de investigar, analisar estudos, realizar entrevistas, perceber as necessidades dos potenciais utilizadores, validar a ideia e estudar a sua viabilidade e impacto. Tudo isto em espanhol. “Nenhuma de nós é fluente ou nativa em espanhol. O principal era garantir que a mensagem correta sobre o nosso projeto passava sem margem para falhas de interpretação.”
Conciliar o SFERA com a licenciatura em Gestão acrescentou outra exigência. Durante quatro meses, o grupo de trabalho teve duas sessões online semanais, às quais se juntavam o desenvolvimento do projeto e as restantes tarefas do programa, por vezes em simultâneo com frequências e exames.
O trabalho desenvolvido colocou o Norte Flex entre os projetos selecionados para a fase final da SFERA Experience 2026, realizada em finais de julho, na Universidad San Francisco de Quito, no Equador.
A participação da ESTG-UNIPVC contou também com a estudante Jéssica Sá e com os docentes Helena Santos Rodrigues, tutora, e Nuno Domingues, cotutor. O projeto não venceu a competição, mas a experiência vivida no Equador acabaria por tornar-se um dos momentos marcantes do percurso académico de Cláudia.
A edição reuniu representantes de perto de duas dezenas de universidades de 14 países ibero-americanos, numa semana que conjugou formação, trabalho colaborativo, desenvolvimento de projetos e intercâmbio cultural.
O desafio seguinte era subir ao palco e falar espanhol
No Equador, Cláudia encontrou ainda outro desafio. Coube-lhe apresentar o Norte Flex. Não em português. Nem em inglês. Em espanhol, perante mais de 90 pessoas. “Acho que só consegui processar que seria mesmo eu a apresentar quando estava a cinco minutos de entrar no palco.” O nervosismo apareceu, mas não a impediu de avançar. “Dei o meu melhor naquilo que estava longe de ser o meu ponto forte. Era a única que não tinha espanhol como língua nativa a apresentar. No final senti alívio e a sensação de dever cumprido.”
Para Cláudia, chegar à fase presencial significou levar a um contexto internacional um projeto desenvolvido durante meses e enfrentar algo que, quando começou a licenciatura, nunca imaginara ser capaz de fazer. “Quando comecei a licenciatura nunca pensei que conseguiria fazer uma apresentação formal de um projeto em espanhol.”
Duas experiências, duas realidades, uma nova forma de olhar o mundo
Macau e o Equador deram-lhe experiências muito diferentes. Em Macau encontrou uma realidade distante da portuguesa, mas onde a presença da língua, da arquitetura e de outras referências portuguesas lhe proporcionava, nas suas palavras, “um pedacinho de casa” mesmo estando longe. No Equador, o contacto com Quito e Ibarra mostrou-lhe outro contexto social, cultural e quotidiano. A diferença entre os dois lugares ajudou-a a perceber melhor uma ideia que hoje considera essencial: aquilo que parece normal numa sociedade pode não o ser noutra. “Vivemos todos no mesmo mundo, mas em realidades diferentes.”
O contacto com pessoas de diferentes nacionalidades e com formas distintas de viver e olhar os mesmos problemas alargou também a perspetiva com que Cláudia encara acontecimentos globais e o seu próprio futuro profissional. À capacidade de análise junta hoje maior conforto em ambientes multiculturais e competências linguísticas reforçadas, com melhoria do espanhol e iniciação ao mandarim.
Ao longo da licenciatura, Cláudia foi também Guide-friend de estudantes internacionais e integrou a associação ligada ao curso de Gestão, tendo participado, nomeadamente, na coordenação das Jornadas de Gestão de 2025.
Mas, quando procura perceber o que mais mudou nestes três anos, não aponta apenas para projetos, disciplinas ou destinos. Aponta para pessoas. “Tenho amigos pelo mundo. E acredito que isso, acima de tudo, é o mais valioso da pessoa que termina este curso. Quem faz os lugares e as memórias são as pessoas.”
Da “menina-mulher” à licenciada que quer continuar a procurar o desconhecido
Cláudia descreve a estudante que chegou à Universidade como uma “menina-mulher”, acabada de sair do secundário e cheia de dúvidas sobre aquilo que a esperava.
Questionava-se se conseguiria adaptar-se, fazer amigos, manter as amizades anteriores, ter sucesso académico e encontrar o seu lugar. Apesar dos receios, diz que entrou “de mente e coração aberto” para as oportunidades que pudessem surgir.
Três anos depois, vê-se como “uma mulher multifacetada”, construída pelas pessoas, pelas experiências, pelos momentos difíceis e pelas oportunidades que decidiu aceitar, mesmo quando significavam entrar em territórios desconhecidos. É precisamente essa disponibilidade que aconselha a quem começa agora o ensino superior. “Se sentirem aquele puxão dentro de vocês para fazer uma mobilidade internacional, atirem-se de cabeça.”
Não ignora os custos nem as dificuldades e recorda que existem apoios que podem ajudar a tornar essas experiências possíveis, nomeadamente bolsas de mobilidade Erasmus+. Na UNIPVC, aponta ainda os BIP – Blended Intensive Programmes, mobilidades internacionais de menor duração, como outra possibilidade para quem pretende experimentar um contexto académico internacional sem permanecer tanto tempo fora.
Para Cláudia, porém, o argumento ultrapassa a dimensão académica. “Estudar fora desafia-nos todos os dias”, afirma, destacando a autonomia, a independência, a organização e a capacidade de resolver problemas que se desenvolvem quando se vive e estuda longe do contexto habitual.
Há cerca de um ano, Cláudia partia para Macau sabendo que essa decisão poderia custar-lhe mais um semestre de licenciatura. Regressou, aceitou um novo desafio, trabalhou durante meses num projeto internacional e acabou no Equador a apresentá-lo em espanhol.
No final, conseguiu aquilo que não tinha como garantido quando entrou no avião: concluir a licenciatura em Gestão nos três anos previstos.
Foi precisamente ao fazer esse balanço, já como licenciada, que Cláudia resumiu a geografia inesperada do seu último ano: começou numa ponta do mundo, em Macau, terminou o ano letivo na outra, no Equador, e acabou licenciada “no meio do mundo”, em Portugal, o lugar onde tudo tinha começado. Agora olha para a próxima aventura profissional e pessoal.
E, depois destes três anos, há pelo menos uma certeza: o desconhecido deixou de ser apenas aquilo que a assustava. Passou também a ser o lugar onde aprendeu a procurar oportunidades.
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